sábado, setembro 30, 2006

ROCKSTAR NA CONTRAMÃO

Finalizando esse Mês Especial Nirvana, publico abaixo um excelente texto, escrito pelo jornalista André Barcinski, um dos maiores entusiastas da banda no Brasil, que saiu originalmente na Bizz por ocasião do suicídio de Kurt Cobain, em abril de 1994. Para ler e pensar sobre àqueles anos insanos que tivemos a sorte de presenciar.

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Para seus fãs, Kurt Cobain deixou três álbuns ótimos. Mais importante que a música, no entanto, foi sua atitude em relação ao estrelato e à maquina da indústria. Cobain acabou com a mística de que o artista é um ser superior, que não pode se misturar com seu público. Ele queria exatamente o oposto. Cobain queria ser como seu público: queria usar as mesmas roupas, ouvir os mesmos discos, queria se misturar na multidão. Seu maior desejo era ser diferente dos astros que dominavam as paradas pré-Nirvana, aqueles que ele tanto detestava. E conseguiu.
Os astros da música dos anos 80 viviam num mundo de faz-de-conta, onde fãs eram apenas um acessório. Aquela década lembrava a fase mais nauseabunda da história do pop, que foi o domínio do progressivo no início dos anos 70. Naquela época o virtuosismo dos músicos servia para distanciar artista e público. O artista era um deus inatingível e intocável, quase uma figura sobre-humana. Nos anos 80 todo este virtuosismo foi substituído por egocentrismo, com resultados igualmente deprimentes.
O que o Nirvana fez foi acabar de vez com essa separação artista-público. Finalmente surgia uma celebridade que não usava guarda-costas para evitar se misturar aos plebeus, mas que se jogava nos braços de seu público durante os shows.
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Nas cinco ou seis vezes em que vi Kurt Cobain, tenho que dizer que fiquei bem impressionado com sua simplicidade. Em Nova York, vi Kurt assistindo a um show dos Melvins. Ele estava junto com o público, suando em um calor senegalesco, enquanto poderia estar no camarote da gravadora bebendo uísque. Outra vez encontrei-o numa loja de guitarras em Los Angeles, testando algumas Fender Jazzmaster. Nunca me pareceu arrogante. Louco, sim. Estúpido? Às vezes. Mas metido não.
O Nirvana foi uma das poucas bandas a fazer música que realmente importava. Quando Cobain cantava sobre dor, angústia e frustração, o público sentia que ele estava exprimindo com honestidade o que estava sentindo. Sei que honestidade é algo subjetivo, mas ninguém me convence que Cobain escrevia aquelas letras pensando em sua conta bancária ou tentando se valer de uma pretensa posição de porta-voz da revolta juvenil. Parece ingênuo dizer isso, mas o Nirvana foi a primeira banda honesta a surgir em muito, muito tempo.
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Numa época em que nenhuma grande mudança cultural pode acontecer sem ser patrocinada por uma gigantesca corporação, Kurt Cobain usou a máquina da indústria para levar uma mensagem que Sid Vicious tentou levar e propagou-a pela aldeia global. E quando todo o planeta dedica páginas inteiras de revistas e horas do precioso tempo na TV para lembrar de Cobain, a lição que fica é a de que ainda existe espaço e necessidade de música que venha da alma. Que venham mais Nirvanas ou que a mediocridade impere.

2 comentários:

Gerlande Diogo disse...

Ótimo texto.

L.C. Logan disse...

eu não gosto de nirvana *correndo pra não ser linchado*