terça-feira, outubro 18, 2005

CRÍTICAS DA BIZZ

Assim que li o texto da seção Discoteca Básica, na 1ª edição da volta da BIZZ, sobre o álbum The Real Thing, do Faith No More, veio a minha memória a crítica ao seu sucessor, Angel Dust, publicado na BIZZ de agosto de 1992 (putz, faz tempo, heim?!). Depois do sucesso de The Real Thing, que ficou mais evidente após a apresentação da banda no Rock In Rio 2, e que traz verdadeiros hits, como “Epic” e “Falling To Pieces”, o Faith No More nos presenteou com esse monstro chamado Angel Dust. Mal comparando, ele deve ter sido uma espécie de Kid A de sua época (para quem não sabe do que estou falando, Kid A é o nome do álbum totalmente experimental que o Radiohead lançou após o sucesso de The Bends e OK Computer). O vocalista Mike Patton, um carinha totalmente maluco, tomou as rédeas da banda e fez um disco a sua semelhança, ou seja, muito bizarro. Mas apesar de toda a estranheza, suas músicas descem bem que é uma beleza (pelo menos para mim), e obteve alguns quase hits, como “Midlife Crisis”, “A Small Victory” e a versão, bem fiel a original, vale salientar, de “Easy”, da antiga banda de Lionel Richie (vou ficar devendo o nome desta banda, se alguém lembrar, posta no comentário, ok?). Agora bizarrice das bizarrices é o selo que vem na capa da versão nacional do disco, que tem escrito o seguinte: “Incluindo o sucesso (I’m) Easy, tema da novela Mulheres de Areia”. Não é de hoje que as gravadoras não entendem nada de marketing! Mas vamos deixar de encher lingüiça e vamos ao texto da BIZZ, de autoria do André Forastieri, um dos meus favoritos entre os que já passaram pela redação da revista.
FAITH NO MORE
ANGEL DUST
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A gravadora London disse que esse álbum é suicídio comercial para o Faith No More. E é mesmo. Não tem nada a ver com The Real Thing, “Epic”, “Edge Of The World”, todo mundo cantando junto e balançando as mãos e tascando sorvete na testa.
Não, isso é um esporro-purulento-paranóico- escroto-sanguinolento, cérebros explodindo multidirecionalmente, picas frustradas se ralando no cimento e sangrando em cima de crianças miseráveis morrendo de fome. Demônios à solta. Adeus fãzinhas púberas, adeus MTV, adeus tudo. Não tem uma porra de um sucesso neste disco. O Faith No More foi longe demais.
“Midlife Crisis”, o primeiro single, dá uma pista do disco mas não entrega o jogo. O próximo (“A Small Victory”) é a coisa mais “fácil” de Angel Dust, mas suas possibilidades de sucesso foram abortadas com sete meses – os caras botaram um trecho completamente anticomercial e esquisito no meio. Por que esse desejo de se matar? Não vem ao caso, mas é quase grande arte.
Angel Dust é Frankenstein: pedaços de gêneros estabelecidos que não estão mortos mas já fedem – metal, hip-hop, country, thrash – fundidos numa criatura única, simultaneamente podre e rebimbando de vitalidade. O NME chamou de schizo-core, hardcore esquizofrênico. É um bom rótulo, mas não é suficiente.
Seguinte: não tem uma letra simples no álbum. Daria para dizer que são quase poemas se não fosse soar tão pretensioso, poemas no sentido William Burroughs da coisa. Exemplo 1: “Os balanços do parquinho não me acomodam mais/ folclore: ninguém deveria acreditar que no próximo ano tem aula/ escreva cem vezes” (em “Kindergarden”). Exemplo 2: “Chegou a hora de falar com meus filhos/ vou dizer a eles exatamente o que meu pai me disse/ VOCÊ NUNCA VAI DAR EM NADA” (em “RV”).
O detalhe é que não tem uma letra que dê para cantar junto. A estrutura das músicas não permite, e a voz de Mike Patton varia radicalmente e vai do velho falsete (pouco usado) a puro terror thrash a baladeiro canastrão.
É tão absurdo que no primeiro lado, logo depois de “Midlife Crisis”, tem uma música que parece Frank Zappa (“RV”) seguida de um funk-metal sujão (“Everything’s Ruined”) e de outra que lembra Godflesh/Sepultura, distorção no talo e vocais monstro (“Malpractice”).
Minha favorita, “Be Agressive”, lembra um pouco “We Care A Lot”, sugere sadomasoquismo, começa com órgão de igreja, tem coro infantil no refrão e guitarra wah-wah. Patton está furioso: “O que outro deixaria para trás, cuspiria fora, desperdiçaria eu assumo como meu”. Mas as coisas vão mesmo para o inferno em “Jizzlober”. É grito choro dor primal, me arrancaram do útero, um pesadelo de distorção e desespero.
O que significa tudo isso? Não sei e não me importo. Vou deixar para alguém mais esperto que eu o trampo de decodificar Angel Dust.
André Forastieri

3 comentários:

marlo disse...

A banda de Lionel Richie chama-se Commodores. Quanto ao disco, para aqueles que esperavam uma continuação de The Real Thing (lista que me inclui), o disco soava confuso demais, mas, com o tempo, era impossível não descobrir grandes canções ali, como "A Small Victory", "RV" e "Crack Hitler". A gente sofreu, mas gozou. O meu CD é nacional, mas já não tinha o famigerado selo, graças a Deus.

Anônimo disse...

As bandas tem o direito de experimentar,e de fazer vc pensar,atitude que falta em algumas bandas.(eduardo Cyrillo)

Paranoid Android disse...

Conseguiu, Eduardo? Eu tava certo ou não?! HEHEHE

E valeu, Marlo, até tinha a impressao q era Commodores msm, mas na duvida nao coloquei, melhor evitar o mico.