quinta-feira, janeiro 11, 2007

DICAS DO MÊS

Bem vindos ao Search & Destroy versão 2007. Começo o ano com uma nova série de posts, onde reproduzirei, uma vez por mês, duas críticas de novos discos extraídas das mais recentes edições da Bizz e da Rolling Stone. Para iniciar, dois álbuns que entraram direto na minha lista de desejos. O ao vivo Skin and Bones, do Foo Fighters, e o “novo” disco dos Beatles, Love. O primeiro texto é de autoria de Gustavo Martins e saiu na Bizz 208, enquanto que o segundo foi escrito pela Lia Amâncio para a Rolling Stone 3.

FOO FIGHTERS
SKIN AND BONES
(SonyBMG)

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Registros ao vivo de versões acústicas, como os consumidores brasileiros bem sabem, representam um convite tentador à encheção de lingüiça e à redundância. Redundância porque tanto o formato “ao vivo” quanto o “acústico” se prestam a mesma coisa: revender singles que o público já comprou, além de ser o momento de o artista mostrar que tem canções de verdade – como se discos de estúdio não fossem prova suficiente. E encheção de lingüiça porque, convenhamos, é raro que artistas pop tenham muito a acrescentar às suas músicas ao vivo, e costumam adotar o violão mais para “bundamolizar” o repertório que propriamente buscar as raízes do que quer que seja.
A seu favor, os Foos têm o álibi de já ter lançado um disco acústico, a segunda metade do duplo In Your Honor, que fazia espelho com outro CD totalmente elétrico. Aqui, é tudo uma questão de contraste: após reconquistar a fama mundial com berros invejáveis, Dave Grohl quer diversificar a imagem, sublinhando seu lado melodista. Vez por outra ele já pipocava nos discos anteriores, e Skin and Bones tem como primeiro mérito compilar esses “momentos baladinha” em uma seqüência nada desprezível. A preocupação com o “plus a mais” instrumental fica clara desde a primeira faixa, “Razor”, que agora tem um crescendo final de arrepiar – taí um grande abridor de shows, mesmo. “Over and Out” ganha um vibrafone, “Next Year” um acordeon, “Another Round” uma gaitinha, “Big Me” vocal feminino, e por aí vai. A tal música do Nirvana, “Marigold”, é boazinha e faz par temático com “My Hero”, mas fica aquém da nova e divertida “Skin and Bones”. São os momentos divertidos que fazem valer o disco, como na faixa-título e a empolgadíssima “Cold Day in the Sun”, em que a banda parece se divertir tanto quanto o público. Descontados os arranjos meio óbvios-zeppelianos de “Everlong”, “February Stars” e “Walking After You”, o saldo é bem positivo.
Gustavo Martins

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THE BEATLES

LOVE
(EMI)

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Love, trilha sonora do novo espetáculo do Cirque du Soleil, tem sido alardeado como o novo disco dos Beatles. Pudera: o projeto recebeu o aval dos vivos Paul e Ringo, e das viúvas de Lennon e Harrison (de George, aliás, veio a idéia de realizá-lo), o que o caracteriza como produto oficial da grife. E não é só isso: as faixas vêm em novas versões – acústicas, a capella, emendadas como numa jam ao vivo e cheias de easter eggs – metais, com batidas e vocais espalhados pelas músicas e não creditados. Passatempo garantido para os fãs menos xiitas, que preferem curtir o disco a ficar reclamando das alterações nem sempre necessárias nas fitas originais.
No entanto, por motivos óbvios, os fab four não se reuniram para gravar material novo – loas devem ser tecidas a sir George Martin e seu filho Giles, que operaram o milagre da multiplicação de canais e transformaram o estéreo num respeitável dolby digital 5.1 (disponível na versão DVD áudio). Também dos Martin é a alquimia entre canções que, mixadas, resultaram em pequenas pérolas: a faixa “Drive My Car / The World / What You’re Doing” é um hit certo, talvez ainda mais do que suas originais isoladas; o perturbador mix de “I Want You (She’s So Heavy)” com “Helter Skelter” ao final de “Being for the Benefit of Mr. Kite”; ou a já bastante comentada “Within You Without You / Tomorrow Never Knows”. Mais do que mashups – não se trata de “bases de uma, vocal de outra” – ou medleys.
Love é um disco de rearranjos (e um novo arranjo de cordas para “While My Guitar Gently Weeps”). Um quebra-cabeça sonoro, magistralmente orquestrado por George e Giles Martin, e pronto para ser desvendado, peça por peça, a cada nova audição. Apesar (ou justamente por causa) da produção primorosa, do repertório que foge do óbvio (“Yesterday” foi, inclusive, posta em dúvida – mas acabou entrando) e do fato de que um disco dos Beatles é sempre genial, Love não passa de uma coletânea caça-níqueis, o que torna necessário rebaixar sua cotação. Leva quatro estrelas e não se fala mais nisso.
Lia Amâncio